Ex-moradora de rua por 34 anos coleciona recordes e encara sua 15ª Corrida de São Silvestre

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O esporte tem muitas histórias de superação, mas para Ana Luiza Garcez, de 55 anos, a atividade física mudou sua vida para sempre. A corrida a ajudou a deixar no passado os quase 20 anos em que passou morando nas ruas do centro de São Paulo, o vício nas drogas, e amanhã ela estará junto com milhares de outros corredores na 94ª Corrida de São Silvestre pela 15ª vez. Para ela, o passado foi apenas a largada para escrever um novo futuro, e a linha de chegada é seu único objetivo.

– Se não fosse a corrida, eu não estaria aqui falando com vocês hoje. Ficava aqui sentada, cheirando cola, dormindo. Aqui é o pátio do colégio famoso. Eu usei muita droga. Cola, benzina, éter, cocaína, heroína. Eu saí da rua e estou correndo na rua. Morava na rua e estou correndo na rua, não tem como sair da rua – afirma Ana.

Abandonada pela mãe numa caixa de sapato logo depois de nascer, Ana morou em um orfanato até os 17 anos. Na rua até os 34 anos, ela fala com naturalidade do passado e revela que não gosta do próprio nome: prefere ser chamada de Ana Animal. A vontade de começar a correr nasceu depois que ela assistiu ao filme carruagem de fogo num cinema do centro de São Paulo. Foi esse desejo repentino e até ingênuo de começar a correr que a fez ser encaminhada pela prefeitura de São Paulo para um grupo de corrida comandado pelo técnico Wanderlei Oliveira.

– Se eu corro da polícia, eu posso começar a correr. Eu falei para os meninos roubarem. Você rouba tênis, você shorts, meia e camiseta.

Depois disso, ela deixou as ruas para morar em um quarto debaixo das arquibancadas do ginásio do Ibiraquera. Cama? Hoje, Ana poderia ter uma. Mas, ela prefere seguir dormindo em um colchão no chão. E é lá, no ginásio do Ibirapuera, que ela guarda as medalhas e troféus que conquistou durante a carreira de atleta profissional há 22 anos. Mas não foi fácil. Foram quase seis anos de tratamento para que ela começasse a ter rendimento na corrida.

– A Ana chegou aqui sem condicionamento nenhum, ela tinha uma barriga enorme, parecia uma mulher grávida de seis meses. Só que ela não estava grávida. Era verme. Ela foi levada a vários médicos, psicólogos, psiquiatras, Para auxiliar porque ela era muito agressiva. De partir para cima das pessoas, de querer bater, mesmo comigo – relembrou o treinador Wanderlei Oliveira.

Esse trabalho de paciência e recuperação deu certo. Por causa da corrida, a ex-moradora de rua ganhou o mundo. Conheceu Inglaterra, Japão, Nova Iorque, Argentina, Cuba, Miami, China, Uruguai, Bolívia, Colômbia, México. Hoje ela é recordista brasileira nos 800m, 1500 e 5000m, todos na categoria Master.

– Se ela tivesse sido descoberta como a maioria com 10, 12 anos, ela teria sido atleta de nível olímpico – afirmou Wanderlei.

Antes, o apelido animal era pela agressividade. Hoje, é pela garra e vontade de continuar em frente sem jamais esquecer o que ficou para trás.

Fonte: Correio do Lago